Há já umas poucas décadas que é notória a relação inversa entre a política e o futebol. As pessoas começaram gradualmente a desinteressar-se pela política, talvez porque o descontentamento e a desilusão com os dirigentes e com os partidos políticos em geral seja tão grande que gerou a apatia. Em contrapartida, o gosto, o interesse pelo futebol foi-se tornando cada vez maior e é aquele tema de conversa que sempre surge à mesa, seja num grupo de homens, de mulheres ou misto. Hoje em dia, ouço falar de clubes de futebol (não de desporto, mas concretamente de futebol) com a mesa paixão com que ouço, por exemplo, o meu pai a contar-me o quanto os jovens eram apaixonados pela política quando tinha a minha idade. Quando ainda haviam líderes, ídolos carismáticos cujas ideias e paixões moviam, arrastavam e convenciam multidões.
Realmente, a História repete-se. Só é pena que as pessoas não se apercebam disso, seja por ignorância ou por não serem capazes de ver as semelhanças ou ainda porque acreditam que a Humanidade vai aprendendo com os seus erros e, portanto, não seria possível voltar-se a cometê-los. Mas a verdade é que já os romanos do tempo do Império diziam que o que precisavam era de "pão e circo" para entreter o povo. Actualmente, é mais uma vez este fenómeno que presenciamos...uma vez que nem pão há, o circo tem de ser maior e mais absorvente ou alienante (como diria Marx - não é meu costume citá-lo, mas esta é a parte da sua teoria com que concordo). Se é verdade que nestes últimos dois anos o número tanto de manifestações como de pessoas que de facto integram esses eventos aumentou grandemente, também é verdade que bastou que o Benfica começasse a ganhar muitos jogos até culminar no Campeonato para que o Governo se sentisse imediatamente mais à vontade. Pouco ou nada ouvi as pessoas a comentarem positiva ou negativamente a chamada "saída limpa" que o Primeiro-Ministro Passos Coelho anunciou ao País. Aliás, a maioria da população nem sequer ouviu ou deu importância à sua comunicação. Tenho a completa noção que esta (não) reacção se prende com o supra-mencionado descrédito da classe política, mas também tenho noção de que é isto que de facto interessa. Se determinado clube é campeão, hoje pode ser uma grande alegria para nós, mas a verdade é que amanhã vamos continuar no mesmo estado de dificuldade económica que estávamos antes. Os problemas não desaparecem, porque o futuro de cada um de nós está nas nossas escolhas nas urnas.
E a resposta não está na abstenção ao voto. Este é tanto um direito quanto um dever que nos assiste porque tantos antes de nós lutaram para o ter. E agora que é tão banal damo-nos "ao luxo" de nem nos preocuparmos com isso porque "qualquer um que seja eleito será igual ao anterior". Se calhar são todos iguais porque nós, enquanto povo, não nos estamos a fazer corresponder correctamente.
Um último ponto que gostaria de partilhar, voltando ao início do texto. Como já disse, o mesmo tipo de emoções que eram nutridas em relação à política, são-no agora com o futebol. Parte desse aspecto tem que ver com o politicamente correcto não estar presente no futebol. Cada vez que vou a um jogo, ou mesmo apenas vendo na televisão, vejo a agressividade dos adeptos, como que um aliviar do stress e da pressão que vêm guardando dentro de si. Os maus momentos da semana, aquilo que pensam e em grupo não podem dizer, tudo isso é descarregado no jogo, em prol do "amor ao clube". A violência a que se assiste entre os adeptos de clubes rivais, principalmente por ocasião de um derby ou de um clássico, é própria de um campo de batalha, é uma agressividade clubística que muito se assemelha à rivalidade entre "raças", em que o desrespeito e o preconceito que era antes dirigido a pessoas de diferentes países e continentes é hoje substituído pelo dos clubes. É algo que deixo para pensarem. No fim das contas, um clube é apenas um clube, um jogo apenas um jogo e o futuro do País não muda por causa disso. Respeito, fairplay e olhos abertos, acima de tudo, é o que desejo.